Publicado em: 14 de novembro de 20213.7 min. de leitura

Amélie, tudo bem?

Hoje é dia 26 de agosto de 2018 e eu e seu pai estamos debatendo há dias sobre a sua existência. Confesso, estou cansada de tanto pensar. O Raphael está muito estressado com a minha instabilidade. Uma hora digo com toda força que não quero. Outra hora levanto um motivo para lhe receber. Tomara que você não seja uma alma ocupando lugar numa fila, esperando a gente decidir. Porque vou lhe dizer minha filha, eu sou uma pessoa indecisa. Mal consigo decidir o sabor do sorvete ou o prato do cardápio, quanto mais decidir se quero ser sua mãe.

Eu queria que você viesse, Amélie, como um pacote via sedex. 3 anos de idade estaria bom. Nessa idade já conseguiríamos ter um diálogo. Eu tenho vontade de lhe ensinar coisas, ir lhe moldando para ser uma pessoa legal nesse mundo. Estamos precisando de gente assim. Poderia adotar. Mas eu li que tem mais gente querendo adotar, do que criança para ser adotada – isso até os 11 anos de idade e eu não tenho estrutura para adotar um adolescente. 

Amélie, eu poderia me apertar de grana. Poderia deixar de viajar, deixar de viver num lugar confortável, deixar de dormir, me dedicar 24 horas a você, ficar preocupada e com medo. Mas eu deixaria meus sonhos para trás. 

A pressão só aumenta. O relógio está girando. E eu só parei para pensar em você com todas as minhas forças, porque farei 34 anos no dia 11 de setembro. Meus óvulos já começaram a perder a qualidade e também a quantidade. Sou medrosa, tenho aflição, arrepio e odeio fazer exames ginecológicos. Alguém aí gosta? Deve ser ranço da religião, medo de ser tocada por quem não deve, medo de encostarem no meu corpo. Sim, tenho algo com meu corpo. É difícil imaginar um ser humano crescendo dentro dele, depois o quadril se abrindo, a dilatação, a cabeça, ombros e o cordão umbilical. Ah, e claro, a amamentação. Se tudo ocorrer bem com ela, ok. Se não, vai ser sangue, cicatrização, pomadas e dor. Muita dor.

Ser mãe é saber lidar com a dor. E eu não sei lidar com ela. Sou sensível a tudo ao meu redor: uma palavra grosseira, uma notícia ruim na TV. Em muitos momentos, eu sou esponja, como dizem por aí. Fico triste com facilidade. Absorvo, sofro e tento ocupar a cabeça com outra coisa. Tenho uma tendência forte para o TOC. Já tive pensamentos obsessivos e, olha, eu tenho bastante medo do meu cérebro.

Está vendo Amélie, eu não seria muito adequada às suas necessidades.  

Sei que minha decisão vai render comentários do tipo: 

Você é fraca. 

Você é egoísta.

Você vai se arrepender. 

Você será uma mulher incompleta. 

Você vai ficar sozinha na velhice. 

Você nunca saberá o que é amor incondicional. 

Você nunca saberá o que é sentir alguém dependendo de você. 

Você nunca ouvirá um “mamãe eu te amo”.

Você vai deixar de viver a melhor e maior experiência da vida.

É Amélie, o mundo é cruel. Porque essas mesmas falas acertam em cheio o peito de mulheres que NÃO PODEM ter filhos. Frases normalmente disparadas por mães, mães lotadas de amor incondicional. 

Só um parênteses para reflexão: (O amor incondicional vale apenas para o filho? Ou ele se expande para o mundo?)

Essas balas perdidas não me acertam em cheio, talvez só de raspão. Porque eu decidi não lhe ter mesmo, então, para mim é um ok. Segue a vida, sem fazer parte do grupinho das mães. Aliás, eu acho que odiaria participar desses grupos. Lógico que esse “ok” veio depois de muita reflexão, depois de muitos raspões, que ainda cicatrizam.

Amélie, eu não ficar grávida, não significa que você não irá existir. E tenho certeza que iremos nos cruzar por aí. Você será um pouco de cada pessoa que eu puder ser o meu melhor. 

Mas talvez você seja mais do que carne e osso e sim uma ideia. Algo transcendental. Um conceito de novo mundo.

Uma ideia, melhor enquanto ideia, do que quando se concretiza.

Fique bem onde estiver.

Beijos da sua mãe, que nunca existirá,

Veronica

 

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