Concentração é uma das coisas mais difíceis para mim. Qualquer som se transforma em uma trilha sonora perturbadora. Digna de algum filme de suspense ou alguma série reflexiva da HBO. Já tirei todas as notificações do whatsapp, porque aquele som alimenta minha ansiedade. Minha ansiedade tem uma fome insaciável.
Crianças gritam na quadra do prédio. Cachorros latem. Casais brigam. O Carrefour me envia SMS com as ofertas do mês. Eu não vou no Carrefour. O Bradesco me liga. Eu não tenho conta no Bradesco. Meus pés congelam, mesmo debaixo das cobertas. Minha franja cai no olho.
Tudo me tira a atenção deste texto. E de tudo que eu deveria estar fazendo agora. Eu poderia estar plantando uma árvore ou fazendo exercícios para os glúteos. Eu odeio exercícios para os glúteos.
Até um novo parágrafo me desconecta por segundos. Queria tanto ter a concentração dos monges ou do meu marido. Ele consegue assistir animes cheios de luzes e vozes estridentes. Sem piscar. Eu não consigo olhar para a TV quando há muitas cores. Eu poderia ter sido uma daquelas crianças que teve convulsão com um dos episódios de Pokémon.
Estímulos visuais e sonoros em excesso são terríveis. Sinto-me perdida em meio ao externo. Sinto-me bem em meu interno. Quer dizer, nem sempre. Tem vezes que a minha cabeça é mais barulhenta que as crianças da quadra.
As coisas de fora e as coisas de dentro.
Elas, elas…Elas sempre me deixam confusa.